terça-feira, março 31, 2015

O QUE NINGUÉM VÊ

ou


 UMA CÉDULA OCRE, BENZOILMETILECGONINA CRISTALIZADA E O AMOR NAS RUAS



  


-Você roubou minha pedra e minha nota de cinquenta reais!

Ela diz em voz alta. Não se importa com as pessoas em volta, existem coisas mais importantes do que se manter invisível o tempo todo. Naquele momento o que importava era a pedra. A pedra e os cinquenta reais.

-Devolve minha pedra e minha nota de cinquenta reais!

Sua voz era desgastada como um pato asmático e enquanto falava mostrava os dentes, trincados e amarelados.

- Eu não estou com sua pedra, nem com sua nota de cinquenta reais.

Ele era magro, assim como ela, e também tinha dentes trincados. Ao contrário dela, ele falava baixo com medo de que incomodar as pessoas em volta.

-Mim dá minha pedra ou eu te bato!

Ela gritou para ele, como cão raivoso. A raiva tornava seus músculos faciais cada vez mais aparentes e, através da pele fina, davam um aspecto rugoso e medonho. Ele olhou para ela, com seus olhos bulbosos e amedrontados.

- Eu não estou com sua pedra, nem com sua nota de cinquenta reais.

Ela se sentiu ofendida com a repetição e, como um sapo que aprisiona moscas no ar, levou sua mão contra ele. O golpe rápido acertou o rosto do homem e as unhas grandes arranharam sua face. O sentimento dele foi de humilhação e desrespeito.

Como um urso que foi incomodado, ele empurrou-a com as duas mãos. Enquanto ela se desequilibrava e caia, ele pulava sobre ela imobilizando-a com todos os seus quarenta e oito quilos. Ela, no chão, gritava e enquanto as mãos magras dele buscavam algo mais.

Achou um pedaço de concreto solto e com ele fez sua arma. Como em "2001:uma odisseia no espaço" a selva de concreto abrigava esse primata grotesco que redescobria o poder da arma. Sangue espirrou pelo ar quando ele golpeou a cabeça dela. E foi ai que ele notou.

Caído, ao lado dos dois, um embrulho com uma onça alaranjada que assistia passivamente o espetáculo da brutalidade.

-Amor, achei sua pedra e sua nota de 50 reais.
-Nossa amor, me desculpa. Estava no meu bolso esse tempo todo e deve ter caído agora.
-Se eu não te derrubasse...
-Eu nunca ia saber onde estava minha pedra.
-Desculpa, querida. Eu te amo
-Eu também te amo, meu bem.

Eles se beijaram no chão, enquanto um pouco de sangue escorria da testa dela e do rosto dele. Os transeuntes não notaram essa história de amor, apenas seguiram suas vidas.

Depois disso eles fumaram a pedra.
E com os 50 reais eles compraram mais pedra.

E fumaram essas outras também.
E se amaram.

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