domingo, novembro 22, 2009

Aforismo 001

no mundo temos flores e feras. beleza e destruição. nascimento e morte. porém ele não é esses opostos, e nem sequer eles são opostos. nós apenas os percebemos assim. toda destruição possui em si um devir-beleza, um devir-criação, a morte um devir-nascimento. olhando mais de perto podemos ver que são apenas manifestações diferentes da mesma realidade poliédrica da Trama, poliedricamente irregular, nunca opondo uma face a outra. ou olhando de outro jeito, essas faces nem sequer o são. o ser supõe uma negação, e é isso que cria a ilusão binária. se dissolver o conceito artificial de Ser, de Objeto, revela-se a Potência, que não é una nem plural, pois não é quantificável. somos nós que, com a ilusão do Ser e da busca da Essência, lhe damos forma e número e CPF. lha damos um nome, um rótulo, uma definição. recortamos a realidade e a fragmentamos.

ao dizer que algo nasce, atribuimos a um devir uma existência objetiva, a recortamos de todo o restante da realidade e negamos a existência de outros devires contraditórios. o mesmo ao dizer que algo morre. a morte e o nascimento não são substantivos, não possuem em si substância, fora de nosso próprio mapa de realidade. somos nós que lhes atribuimos sua substância fantasmagórica, "A Morte", "O Nascimento", memes, grades de janelas. as percepções humanas inventam a dualidade, mas o mundo tampouco é uno. a própria unidade é fruto de nosso quantificar. a realidade não possui quantidade, não sendo substância, não possui adjetivo.

então o leitor pensa "mas eu sou! eu estou lendo este texto, portanto eu existo, o que eu experencio é real". pois sim. você é real, eu sou real, este texto é real. mas não por si próprios, porém apenas em experiência. quando a experiência cessa, cessa a realidade. a memória é uma continuação da experiência. sonhos são reais, eles acontecem.

distinção entre material e ideal não faz sentido neste mapa de realidade. alguns dizem que o material, o concreto, é que define a consciência. mas o que é o concreto, pergunto-lhes eu. seria o concreto a economia, como dizem? como eu gostaria de chutar a cotação do dólar! ou seria o concreto a fome, a dor, as sensasões físicas? mas sensações não são produto da mente, relações abstratas? e pensamentos abstratos não se expressam em mudanças concretas na realidade, não são eles próprios também reações químicas e biológicas? onde, no fim das contas, está a oposição entre abstrato e concreto? uma coisa está tão imbricada na outra que querer separá-los e opô-los gera o sentimento de falta que marca nossa civilização. dividimos o mundo e tentamos viver o dia-a-dia em metade dele e buscamos a outra metade em religiões e prazeres e entretenimento.

mas não se trata simplesmente de negar a dualidade em favor de uma unidade essencial de todas as coisas. sendo aí a própria negação o gérmen de nova dualidade, a afirmação de uma verdade superior. dissolvo a dualidade em favor do nulo. no nada não há negação, nem afirmação, apenas há. o nada não é ausência de algo, nem o contrário. é a totalidade da existência, o saldo de todas as equações. não há verdade, pois esta é mais uma relação de sentido, e a realidade não tem sentido.

via O Zenarquista

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