quarta-feira, abril 09, 2008

Vida longa ao Rei!

"Vi muitas vezes que os homens ficam neuróticos quando se contentam com
respostas insuficientes ou falsas às questões da vida. Procuram situação,
casamento, reputação, sucesso exterior e dinheiro; mas permanecem neuróticos e infelizes, mesmo quando atingem o que buscavam. Essas pessoas sofrem, freqüentemente, de uma grande limitação do espírito. Sua vida não tem conteúdo suficiente, não tem sentido. Quando podem expandir-se numa personalidade mais vasta, a neurose em geral cessa."
C. G. Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões

Depois de trepar como um "Macaco sem pêlo" com Lia, Plínio chegou em casa com a desculpa de
sempre: trabalho [alguns usam a mesma desculpa para desperdício de vida e
acúmulo de dinheiro para os descendentes, outros para saciar a fome].
Eunice, sua mulher, era uma grande atriz, embora nunca tivesse pisado num
palco: representava todo dia o papel da esposa ideal, socialite e mãe. Sua dissimulação e hipocrisia era o que carregava o casamento durante anos sem a menor turbulência, já que ela pouco se importava com o que o seu marido fizesse ou deixasse de fazer com outra mulher. Desde que ninguém ficasse sabendo, claro. Era uma perfeita dama.
- Estou preocupada com a Marta... - disse ela a um sonhador Plínio, que
retirava os sapatos para se deitar - Ela acabou de ligar. Brigou com o
Augusto de novo...
Plínio levanta uma sobrancelha e sente a armadilha: "o que será que ela
quer?".
- Vamos convidá-los para uma janta ou algo do tipo... eles se arranjam -
disse ele com falsa naturalidade.
Eunice, que fora quem delatou Augusto para Marta alguns meses atrás, se
divertia com a pressão que impunha no marido, que a esta altura já achava
que ela sabia:
- Podemos sair, ou ir ao teatro... - completou ele, agora já deitado,
esperando a facada.
- Algo assim... ah, amanhã podemos ir comprar meu carro novo? Estou ansiosa por aquele BMW que vi semana passada. - ela faz uma voz mais infantil, armadilha.
- Claro, querida. Vamos dormir.
No dia seguinte Plínio se dirige ao escritório com aquele sorriso de
americano, defesa para as lágrimas que ele nem conhece. Que mais pode ele
querer? Uma esposa perfeita, uma amante ideal, filhos que não incomodam...
ahh.. a vida é bela, embora não seja muita vida. Anestesiado, nem nota os
drenos que retiram seu sangue lentamente, muito lentamente. Está no topo do mundo, até que se torne um velho decrépito e broxa, babando em algum
sanatório pago com o dinheiro que deixará para os filhos.
Parabéns para sua majestade!
Ele cruza com um rapaz muito estranho, com uma mochila nas costas e um rosto "humano, demasiado humano", e depois com um mendigo paradoxalmente feliz.
Não dá a mínima atenção para nenhum dos Budas.
Não preciso dizer que Eunice se prepara para seu encontro matinal com o
garotão do momento. Aqui nós temos uma mulher mais livre e mais poderosa que o marido, embora ela não ocupe nenhum cargo importante, nem trabalhe. As
feministas custam a entender Eunice, porque elas, apesar de tudo, não
entendem os mecanismos do cosmos, confundem falo com poder [uma confusão
certamente baseada na análise dos elementos aristotélicos; o Fogo].
.'.
Do outro lado do globo morre Dacum, o último a falar uma língua aborígene
agora extinta. Dos seus 215 bisnetos apenas um retornou para a tradição dos antepassados.
Dacum leva consigo o segredo da tinta branca e das palavras sagradas. Não
guardava rancor das mudanças que havia presenciado, do mundo que havia
virado de pernas para o ar. Sequer sentia agonia por enterrar os segredos e a língua consigo.
Dacum entendia que tudo é impermanente, e que as tradições também precisavam morrer um dia.

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