quarta-feira, setembro 09, 2015

João


Ele queria a farinha e a farinha queria ele. Não era dele, mas estava ali. A dez reais de distância. Coça o bolso, a bolsa, a cueca e o sapato - ridículo, ele nunca deixou dinheiro no sapato. E só o que aquele funcionário público achou foram duas moedas de vinte e cinco. Ah, ele tinha que agitar essa fita.
Falou com um, dois, três, quatro, cinco caras. Juntando, dava nove contos. Talvez, o traficante fizesse essa e fosse junto. Tinha que ir lá, trocar uma idéia. Foi. João debatia, dizia que era cliente fiel, gastava bem e lembrou que semana passada até deu o celular pra ele pra pagar cinco pino. Celular bom, televisão e os caralhos. O cara dizia que não, que não dava, que os negócios andavam ruins, que também tinha que pagar o patrão. Disse que já fazia uns dois dias que não dormia tentando virar a mercadoria pra ganhar alguma coisa com isso. Mas depois de muita discussão, rolou a cena.
Lá vão eles. Meio espirro de cocaína e sete homens no banheiro. João, o último. O que pagou mais vai primeiro, João trabalha a droga. Pega uma nota de dois imunda e vai dividindo as carreirinhas. Reclamação do outro lado, dizendo que a divisão está desigual.
Divide de novo. E de novo. E ainda dividiria uma quarta vez, se alguém não tivesse dito pra parar com essa putaria antes que a nota tivesse mais droga que as carreiras. Foi feita a divisão. Cada um vai e faz sua parte, todos sérios, como quem resolvem problemas de estado. E ele espera. Espera, espera, ah!
Rolou, rolou. Ah...

Mas que tirinho de merda.

Ah, mas ela estava ali. A dez reais de distância.

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