quinta-feira, abril 08, 2010

Uma cidade melancólica, onde ninguém nunca sorri – Menina Morta

Escrevo uma carta em minha própria mão cujo foi decepada em trabalho, mão de obra barata, escrava, para diversão deles minha conduta nunca foi boa e eles não gostam de crianças desobedientes. Vândalos, Degenerados, Delinqüentes, Ladrões, Baderneiros, Desobedientes, Sarcásticos, Marginais & Homens-Livres, foi como nos taxaram, colocaram uma etiqueta em nossa língua, um numero em nossa testa. Éramos todos escravos do mesmo monte de excremento, e eles faziam questão de nos dizer, questão de fazer-nos saber que íamos morrer.

Seus corpos são deformados cheios de enxertos, alguns não possuem troncos nem braços, vivem cantarolando pelos corredores adjacentes aos meus ouvidos, nos mantêm aqui e controlam os reatores cujo agrupamento é apelidado entre seus detentos de "casa", para mim é mais um campo de concentração. "Faça silêncio" é o que diziam, apenas davam a desculpa que era para nosso bem e estávamos todos doentes, nos separaram de nossos entes desde então sem nenhuma explicação tudo passou rápido, tão rápido que ninguém notou os dias, era difícil distinguir dois dias de duas semanas, ninguém veio nos buscar, talvez também tenham sido pegos... Éramos tão felizes.

Adeptos da fé e cheios de preconceitos alegavam cheios de contradição que éramos todos pecadores hereges e nos ensinavam que amor é uma blasfêmia, é errado, cheio de regras, deve ser contido e a principio foi tão difícil, os que escapavam nas primeiras semanas diziam que seriamos transferidos para um mundo recente e tão remoto que sua localização é desconhecida, acredito que na verdade ocultam informações.

Homens com barba mal feita, rostos mal lavados. Tiranos & Usurpadores, eles falam que precisam nos controlar, que somos fora-da-lei, que não podemos mais viver felizes, fazem questão de tomar nossas terras, questão em nos deixar cientes de que irão poluir nossos rios e nossas florestas. Eles dizem que ninguém muda, e isso me dá força de vontade, se antes era um homem livre, agora também serei. É por isso que nego trabalhar para esses sujeitos mal-cheirosos, e é em nome da Liberdade que provavelmente estarei fadado à morte nessa fatídica noite. Talvez eles me torturem antes, é uma diversão para eles, não entendo o fetiche nisso, mas tortura alheia parece ser o assunto quente entre eles.

Miseráveis...

Todo dia ouço esse mesmo gemido mais parece uma roda enferrujada, periodicamente trazem os corpos puxados sobre uma espécie de carrinho aparentemente selado, não se vê soldas, estocam os restos naquelas estantes prateadas da 3° casa de arquivos em potes azuis com um tipo de asterisco com uma etiqueta cheia de numerais e caracteres ilegíveis aos olhos acorrentados atrás dessas barras.

Não posso deixar de observar, os homens famintos, nos dão ossos, e comem suculentos pratos, mais doces do que de anjo, eles dizem. Posso observar tamanhos disformes, as vezes deixam grandes ossos do tamanho de um úmero, ou de um rádio. As vezes uma tíbia, ou um fêmur. Não poderia imaginar que bicho poderia dar ossos desse tipo. De certo tomo consciência do fato de que essa carne não é normal. Não posso deixar de me perguntar, de que continente será que provem essas especiarias?

Eles mentiram pra vocês, ludibriaram e manipularam com suas roupas caras e fala mansa! Vocês já são livres, tudo é permitido! Um brinde à Éris, A mais bela, a Deusa da Discórdia! Sejam os Sagrados Anjos de si mesmo, como diriam os Thelemitas! Sejam seus próprios Demônios, como diriam os Ocultistas! O Único Pecado é a restrição. Viva sua vida, eu bem que gostaria de viver a minha, mas agora é tarde demais...

Não consigo mais esconder o meu repudio por essas criaturas. Finalmente me desvencilhei dos grilhões da Escravidão. Estou transcendendo a realidade. Estou rompendo meus limites e finalmente abraçando a imortalidade. Já chega desta hipocrisia, agora eu vou lhe mostrar-lhes algo diferente. Da tua sombra que se segue ao amanhecer. E por tua sombra que à ti te ergue ao anoitecer. Eu vou mostrar-lhes o medo num punhado de pó!

VIAGEM SIDERAL

Minha execução foi decretada e imagino que terei o mesmo destino de meus irmãos, sinto falta de tudo que deixarei aqui e medo desse futuro incerto. Já sinto falta do cheiro doce do campo, eles podem me acorrentar à fezes, podem ter traçado meus últimos meses linha por linha, mas nesses últimos dez minutos eu sou livre. TUDO EM NOME DA LIBERDADE, eu repito, as pessoas se esquecem que o nosso verdadeiro motivo de transcender é viver livremente. Essa espera é que está me matando...

Agora eu me despeço de todos vocês, muitos daqui não verei outra vez. No final das contas o que está me atormentando mesmo é toda essa espera, eles me aprisionam e me fazem contar carneiros. Gasto o tempo que não tenho, com coisas que não gosto. Acho que no final da sua vida, você começa a pensar no começo, convenhamos, Aleister Crowley realmente sabia do que estava falando quando disse: “Amor é a Lei, Amor sob Vontade”. As tradições e seitas orientais tem o costume de dizer que no segundo que antecede sua morte você vê sua vida inteira num piscar de olhos, eu não acho que seja bem assim, acho que você apenas veja as coisas que realmente lhe importam nessa vida...

Será que você pode adivinhar o que eu vi?

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