terça-feira, abril 20, 2010

O cabeleireiro das estrelas

por Pedro Ivo Resende

Meu cabelo é duro, estilo black-power. E se eu passasse algum tempo sem cortá-lo, sempre recebia o mesmo telefonema.

- O senhor Pedro, por gentileza.
- É ele.
- Bem, aqui quem fala é o representante dos direitos autorais da banda Jackson Five para a América Latina. Se você não mudar o seu penteado nas próximas vinte e quatro horas, entraremos com um processo por uso indevido de imagem contra o senhor. Passar bem.

Definitivamente era hora de cortar o cabelo e, por que não, adotar um visual moderno. Entrei no Chez Lutcho's, o salão da moda, e fui atendido pelo próprio cabeleireiro.

- Cabeleireiro, não! Sou hair designer.
- Ótimo.

Pedi pro Lutcho raspar o meu cabelo à máquina. Ele abriu a gaveta e me mostrou o aparelho.

- É isso que você quer?
- Sim.

Lutcho atirou a máquina contra o espelho e se enrubesceu de raiva.

- Sou Lutcho's Coiffeur, cabeleireiro das estrelas! Não me vendo por tão pouco. Eu te pego, eu te mastigo, te cuspo, eu te transformo. Deixa eu te mostrar uma coisa.

Lutcho remexeu num armário e me trouxe uma foto. Era ele e um sujeito loiro.

- Essa é uma foto minha com o Richard Gere. Cortava o cabelo dele em troca de aparições furtivas nos grandes sucessos de Hollywood.
- Porra, mas esse sujeito aqui não tem nada a ver com ele.
- A foto é antiga. Posso te contar um segredo?
- Sim.
- Eu inventei o corte asa-delta.
- É aquele da voltinha atrás?
- Isso.
- Que merda, Lutcho.

Lutcho ficou ainda mais transtornado e explodiu em prantos. Saiu correndo na direção de uma porta e se trancafiou lá dentro. Um velho barbudo de cadeira de rodas elétrica desceu uma rampinha do salão e parou ao meu lado.

- Lutcho tenta te agradar, te fazer feliz, e o que você dá em troca? Desprezo!
- Olha, não foi por querer.
- Peça desculpas para ele.

Andei até a porta, de onde se podia ouvir os soluços do cabeleireiro.

- Lutcho, desculpas aí.
- Diga!
- Dizer o quê?
- Diga que você é um animal, insensível, ignorante.
- Nem fudendo.
- Tá bom, me faça elogios então. Elogios em francês, elogios mil.
- Olha, eu só vim pedir desculpas. Mas também você fica contando essas mentiras. E isso é...
- Excuse me.

Olhei pro lado e vi um cara alto de cabelo grisalho. Puta merda, era o Richard Gere!

- Lutcho, darling, come on. Let's go to San Francisco.

Lutcho abre a porta e salta para os braços do galã de Hollywood, que o acomoda no banco traseiro de um Jaguar estacionado em frente ao salão. E eu fico com aquela cara de "mas que porra é essa?". Nisso o sujeito da cadeira de rodas sobe à toda velocidade para o topo da rampa e de lá proclama:

- Corações aflitos, meu jovem! O mundo está cheio deles.

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