quarta-feira, janeiro 16, 2008

Não existe abraço grátis

por Pedro Ivo Resende

Rodolfo, o espírito de porco. Fazia sinal para os ônibus pararem com uma saudação nazista.

- Rodolfo, você nem sabe o que aconteceu. Pra começar, paguei muito barato nesse celular. Adivinha quanto foi!
- Uns três reais.
- Assim também não. Nenhum celular é tão barato. Paguei cento e cinqüenta reais.
- É um preço razoável.
- Mas escuta, fui conversar com o vendedor da loja e ele me pediu quinhentos reais. E tinha que pagar à vista. Aí eu virei pra ele e disse "Vai tomar no cu, quinhentos reais é um absurdo!".
- Posso fazer um parêntese?
- Sim.
- Você não falou "vai tomar no cu" na hora. Pode até ter pensado nisso, mas não falou. Não teve a coragem. As pessoas sempre se põem como os grandes heróis das histórias que contam.
- É... Na verdade eu conversei com ele numa boa. Gostei do cara. Parcelamos o aparelho em três vezes de cento e cinqüenta. Mas você não sabe da maior! Quando fui pagar, eu ganhei uma promoção e levei esse outro celular de graça. Olha só, não foi legal?
- Sim, foi legal, mas só para você que ganhou o prêmio. Eu não achei legal. Fiquei com uma ponta de inveja, para falar a verdade.
- Mas por quê? Você não fica contente pelos seus amigos?
- Não, pelo contrário. Eu até gosto de você mas, por exemplo, quando sua mulher te largou, meu coração se encheu de alegria. Foi um dia especial. Você passou a ser um fudido, como eu. Não estava mais sozinho no clube.
- Meu deus, você é um monstro!
- Um monstrinho.
- Um monstro desprezível.
- Um monstrinho afável.
- Um monstro desprezível e perverso.
- Um monstrinho afável que precisa de um abraço. Ele está se desculpando com você.
- Bem... eu não sei.
- Vamos lá, anda.

Os dois amigos se abraçam. São de momentos como estes que a vida é feita. Eles se desvencilham e Rodolfo aproveita para preencher o vácuo do momento com um comentário saudosista.

- Lembra quando você estava se recuperando de uma ponte de safena e eu te mandei um presente?
- Lembro, lógico. Foi aquela latinha que, quando você abria, pulava uma cobra lá de dentro. Eu tomei um susto e precisei voltar para a sala de cirurgia. Mas isso não importa, você se lembrou de mim, mostrou que se importa.
- Pois então: mais um abraço pro monstrinho aqui?
- Não, chega Rodolfo!

2 comentários:

Reverendo Johnny P. disse...

Hahahahahahahaha, excelente!

-><-

Rev. Peterson Cekemp disse...

G-R-E-A-T