quarta-feira, dezembro 05, 2007

Charada no fundo do copo

por Marpessa de Castro

do livro Cotidiano no diminutivo e outras histórias
dioramanoturno.blogspot.com


Eu as chamaria, se alguém pedisse minha opinião, de melífluas. Palavra bonita, essa. Sugere segredo, por isso é adequada.

O que fazem? Ora, elas sobem, continuamente, indo agrupar-se na superfície para formar um conjunto frágil e repleto de ar escondido.

São um mistério. Parecem brotar do nada, mas sabemos que nada pode nascer do nada, somente Deus. São um mistério porque, como todos os mistérios, quanto mais me aprofundo, menos sei. Fico pensando, às vezes, se existem de fato ou se eu as invento.

Químicos poderiam esclarecer o fenômeno. Poderiam falar sobre gás carbônico e outras coisas que não entendo. No entanto, cheguei ao limite do desconhecimento, o limite em que não desejo saber coisa alguma além do fato de estar diante de um mistério. Pequenino, porém mistério. Não há por que esclarecer os fatos.

Sou perfeitamente capaz de permanecer por longos minutos a observá-las subir, ininterruptas. É de uma delicadeza fantasmagórica o que fazem, e como fazem. Desprendem-se do fundo (e aí parecem mesmo brotar do nada) e vão dançando sossegadas, contentes, iguais, sempre para cima e pronto, ajuntam-se. Em conjunto são brancas, mas individualmente nascem e dançam amarelas. Ou marrons, ou pretas, mas quando estão pretas não me é possível discerni-las direito.

Devo dizer que o conjunto à superfície não é interessante do ponto de vista do mistério. É como se a magia se desmanchasse na exata proporção em que a superfície se forma. Por isso, não leva mais que três segundos inteiros contemplar uma delas até que perca seu encanto por completo. São tão melhores quando nascem, tão mais intrigantes! Eu comparo a superfície, por extensão, a uma espécie de morte.

Diante de uma grande interrogação, curvo-me, reverente. Não há por que esclarecer os fatos.


pescado na Revista UBU

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