terça-feira, julho 24, 2007

Da Polêmica Anarquista

por Reverendo Fernando Ganso


Gostaria de comentar brevemente o artigo do Murray Bookchyn "Uma crítica ao anarquismo como caos" onde faz severas críticas a Hakim Bey e ao anarquismo ontológico. Ora, Booktchyn em um delírio positivista parece não ser capaz de enxergar um palmo além do seu nariz, será que o anarquismo estará condenado a não aceitar a diferença? É certo que grande parte do anarquismo do século XIX e XX foram contra a désmesure e o descomedimento, foram contra qualquer apelo "individualista", e conseqüentemente singular, considerado logo como pequeno burguês. Assim tambem o foram as varias correntes marxistas e socialistas em geral. Coloquemos a questão: Qual é a autonomia que o anarquismo busca? É a auto(nomia) apenas social?

Muitos autores talvez gozem ao falar em ordem, Razão, organização, para mim, sinceramente, isto é um olhar de pirata. O tapa-olho as vezes atrapalha, e então ficamos presos a nosso tipo psicológico particular e o generalizamos como se o mundo devesse ser nossa imagem e semelhança. Quem é o pequeno burguês e o Einzige é difícil dizer. Não vou acusar mais o Bookchyn de caracinza, porque ele, embora caracinza, ainda é um cara legal, mas o anarquismo não pode ficar preso nessa austeridade apolinea, isso é burrice, é mesmo falta de compreensão de nosso Zeitgeist (espírito da época). Com certeza para nosso amigo os surrealistas deviam ser outros desses pequenos burgueses; esta é a mente de quem não consegue imaginar, é uma mente tipicamente da direita, masculina (seja o masculino do homem ou da mulher) é a mente do duro "Ateismo muscular", algo bem fálico. É um pensamento típico de alguem que acha que se mudando os meios materiais de uma sociedade, se dominarmos os meios de produção, se tivermos um pensamento voltado ao social os problemas estarão resolvidos.

Esquecemos que foi a direita, a atividade masculina, já que a força está normalmente na mão direita, que oprimiu através da força a mulher. O próprio tabu dos canhotos é fato consumado, um dos epitetos do diabo é canhoto. Já a superioridade da esquerda normalmente esteve ligada a matrilinhagem, a lua, a noite e ao feminino, lembremos ainda que o feminino sempre esteve ligado ao obscuro, desconhecido, ao gato e especialmente a imaginação e a magia (a exemplo lembremos os xamãs que se vestiam de mulher para entrar em contato com os espíritos). Retomemos, em prol do exemplo, a diferença de tratamento na linguagem entre a esquerda e a direita. Em latim, direita é dextra que se aproxima de decet "o que é conveniente" já a esquerda é sinistra, de mau pressagio, funesto, sinistro e em grego direita é deksiá e significa "de bom augúrio, favorável" e esquerda é aristerá, quer dizer, excelente, ótima.

Essa questão é também a disputa entre o apolineo e o dionisíaco, Apolo e Dioniso aparecem no campo de batalha. Lembremos primeiramente que Apolo foi na mitologia grega o deus principal da manutenção da ordem e dos antigos costumes, seus principais ditados eram o medèn ágan (μεδεν αγαν) nada em demasia, o sophro-sýne, a moderação e o gnôthi s´auton (γνοθι σ´αυτον) conhece-ti a ti mesmo, dessa forma Apolo evitava os excessos que ameaçassem a ordem social. A Razão ao ser desenvolvida foi o baluarte do iluminismo e da revolução industrial, a construção de uma sociedade pragmática, trabalhadora que estivesse compromissada com a funcionalidade capitalista.

Ora, Booktchyn fala ironicamente que adoraria ver Bey e seus discípulos nos "piqueniques" da Libertarian League, mas minha Nossa Senhora! Quem não tem prazer e não faz piquiniques numa revolução é que constrói sua própria derrota! Que a sociedade vindoura possa saborear um bom vinho e mesmo produzir orgias, que a sociedade vindoura saiba saborear, como Orfeu, a musica e a poesia. Lembremos quem eram os inimigos de Dioniso na sociedade grega: os Eupátridas, isto é, os aristrocratas. Bey trouxe de volta o êxtase (ekstasis) e o entusiasmo (enthusiasmus) que foram as principais formas nos rituais dionisíacos de ultrapassar o métron (a medida) e tornar-se um deus; segundo Brandão "O ékstatis, todavia, era apenas a primeira parte da grande integração com o deus: o sair de si implicava num mergulho no Dioniso e deste no seu adorador pelo processo de ενθουσιασμοs (enthusiasmós), de ενθεοs (éntheos), isto é, 'animado de um transporte divino', de εν (én), 'dentro, no âmago' e θεοs (theós), 'deus', quer dizer, o entusiasmo é ter um deus dentro de si, identificar-se com ele, co-participando da divindade". E ainda era com as Bacantes que os adoradores de Dioniso através da mania (loucura sagrada) e das orgias que se concretizava a comunhão com o deus. Nenhum outro deus ligava-se ao homem de tal forma.

Esse dionisíaco é sempre uma metamorfose (a isso re-lembremos as festas da antestérias), talvez por isso este lado assuste ao anarquismo que muitas vezes se deseja um sistema ideal, o Éden na terra, que aliás, é um dos grandes mitos do anarquismo, exatamente por isso teme o pecado da mudança (comer a maça), de se abrir portas proibidas (a caixa de pandora). Devemos deixar de ser tão moralistas e aceitar mais as diferenças, essas são as flechas que eu gostaria de lançar, com minha máscara do feminino Eros. Abrir um vaso de aceitação e acolhimento, mesmo que, muitas vezes, um vaso com pontas.

Que o anarquismo ontológico possa nos prover como meio de encontrar nossa singularidade, nossos momentos limites alterando-nos nas profundezas e não só na superfície e então, em devir, tornamo-nos juntamente com o mundo, um outro lugar. É preciso ser um suicida, como Nietzsche, amo aqueles que vivem como se extinguindo. O anarquismo não é um ponto final, mas uma abertura de caminhos, se não o é, que construamos este anarquismo ramificado de encruzilhadas e bifurcações. Como Janus Bifronte sigo com a Razão e a Imaginação, uma na frente e outra nas costas e de meu coração sai a voz que grita desesperadamente pela Aurora, por um novo dia.

Ainda há vida por entre Bey e Bookchyn, no meio, intermezzo. Fnord.

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