quarta-feira, outubro 30, 2013

"An Bee Lhou Lhou Tom" ou "O começo de uma saga que eu tive preguiça de escrever o resto, mas tinha alguma coisa a ver com universos paralelos"

Nadja trancou a porta do quarto. Trazia nas mãos um grande envelope pardo, com óbvios sinais marcados pelo serviço postal de diversos países. Aquele presente havia viajado muito para chegar ali. Jogou o pesado pacote sobre a cama, que  se comportou como um tijolo sendo arremessado.

Nadja abriu as portas do guarda-roupas. O que era, por fora, um trabalhoso trabalho em mogno e metal, por dentro não passava de montes desorganizados de roupas, desgastes antigos causados por  cupins, panfletos e frases sarcásticas escritas com tinta corretiva e marcador permanente. Mas, o que mais chamava a atenção, nesse mar de revolta juvenil em forma de mobília, era o grande espelho posicionado perfeitamente ao centro do guarda-roupas.

Olhou o espelho e notou a si mesma. A solidão do quarto refletia a solidão de sua alma, sua aparência peculiar refletia a decisão de abandono de tudo aquilo que se considerava esperado ou comum. Olhos grandes e fundos, sobrancelhas grossas, boca pequena, nariz pequeno, um cabelo castanho claro incorrigivelmente rebelde, pele queimada de sol. Suas roupas largas e velhas escondiam ainda mais suas formas femininas, que já não eram aparentes. Seios pequenos, quase sem quadril, pernas magras, mãos calejadas. Nadja poderia facilmente se passar por um garoto mais novo, e era constantemente confundida com um. Não que isso fossa vantagem aos 14 anos.

Se despiu em frente ao espelho. Durante alguns segundos, observou as suas cicatrizes. espalhadas por todas as partes não tão visíveis do corpo. Todas feitas com alto flagelação. Pintou os olhos com vermelho, um traço rubro horizontal que seguia de orelha á orelha. Vestiu um colar, uma estrela dourada circunscrita como pingente. Colocou um manto, um longo tecido pardo, costurado à mão, com uma abertura em v do pescoço ao umbigo, cobria a cabeça com um capuz e chegava a cobrir os pés.

Não era mais Nadja, a frágil adolescente. Agora era Nadja, a feiticeira do fogo.
Encarnada em seu alter-ego mágico, emanando octarina e aether de seu corpo, Nadja se virou num movimento quase apocalíptico. Magos, quando estão em seu poder máximo, encarnam a força devastadora da mudança em tudo que fazem, dos maiores feitos aos menores gestos.

O ar ouviu os pensamentos de Nadja e vibraram num sussurro que poderia ser ouvido com os olhos, na forma de um onda de distorção espacial. Feitiços de proteção são invocados, quando Nadja faz malabarismos com verbos de uma língua antiga, e os forja com as mãos em forma de barreiras impenetráveis. Era quase visível o globo de energia mistica em torno de Nadja, protegendo seu corpo e alma de todo mal.

Ajoelhou-se em frente a cama, como uma arvore ao firmar seus galhos. Movimentou seus dedos leves e rápidos e, sem um erro sequer, abriu o pacote pardo em 2 pedaços. Pôde ver amarelo, depois pôde notar que era um livro, depois pode notar a borboleta multicolorida em sua capa, e depois o título.
"Beonai Meankeou - O Livro Amarelo dos Naibean".

Ela se sentiu orgulhosa. Durante meses ela havia buscado uma cópia desse livro. Só os deuses sabiam o quanto ele teve que lutar por ele. Mentiu, roubou, se arriscou, agrediu e outras coisas que não prefere lembrar. Quem diria que ia acabar conseguindo o livro como um presente, de uma viúva velha  que, após os feitiços certos, se dispôs à doar os pertences do falecido marido? E quem diria que entre esses pertences estivesse um específico livro de magia que permitia o contato com entidades além da compreensão do homem comum?

Não importava mais nada. Ela o tinha ali, O Livro Amarelo dos Nainbean, com todo o seu poder, glória e loucura.

Excitada e amedrontada como alguém que está prestes a lutar um combate até a morte, Nadja convocou a proteção de antigos deuses pagãos a muito esquecidos. Deuses das florestas, do fogo, das tempestades e dos ventos podem ser sentidos surgindo. Ela está no ápice de seu poder, os deuses reconhecem e concordam em protegê-la. Então, apoiada por todo seu poder mágico, ela abre a primeira pagina do livro.
A primeira pagina contém cinco símbolos. Hieróglifos. Ela já conhecia eles, a língua secreta dos Nainbean. Então, como todo jovem, ela comete um erro terrível. Sem perceber o que fazia ela lê os 5 hieróglifos em voz alta, como se convocasse alguma coisa.

"An Bee Lhou Lhou Tom"

Tudo se quebra.

Ela não consegue manter suas magias de proteção, os deuses se afastam dela de alguma forma. Ela perde o controle. Sua mente fica em branco.

Então, ela começa a crescer, crescer e fagocitar cada partícula de existência à sua volta. Suas proteções, os deuses, o quarto, a casa, o bairro, a cidade, o país, o mundo e outros mundos. Ela se torna uma enorme ameba multiforme, e engole tudo, se torna tudo.

Então ela se vê nua, num lugar completamente branco. Não há diferença de chão e teto, não há paredes, apenas o infinito branco. Ao longe uma criatura andrógena de costas, possui cabelos ultravioletas e roupas peculiares. O ser pinta um grande quadro abstrato. A criatura possui pele azulada, como um morto, e várias tatuagens douradas brilha sobre a pele.

Ela diz, completamente abalada: "Onde eu estou?"

Ele, ainda de costas, diz com um tom ao mesmo tempo irônico e debochado. A voz é completamente ausente de gênero: "Você está em mim, minha querida. Portanto sua pergunta deveria ser "quem eu sou." hehhahhahha"

Assutada, ela apenas diz com uma voz fraca: "Então quem é você?"

Ele, sem parar de pintar um único instante, novamente debocha e ri como um louco: "Eu? Eu sou Deus, garota O criador do céu e da terra. O pintor de universos, a centelha criadora. A gargalhada cósmica. hahahhahHAah Mas você não entendeu, antes de saber onde está, você tem que saber quem você é."
Ela, completamente ofendida com aquele comportamento, responde raivosa: "Ora, eu sou Nadja"
Deus, sem parar de pintar, faz um movimento impossível e indescritível para mostrar a ela um pequeno espelho triangular. O rosto dele fica aparente, sem olhos nariz ou orelhas, apenas um enorme sorriso circundado por um volumoso cabelo violeta esvoaçante.

Ele diz rindo: "Olhe para si mesmo. Você é Cristo, Odin, Osíris, Lennon, Cthulhu, Lúcifer, Simba, e todos os outros que morrem, dormem ou são exilados para depois retornar. Você é meu filho pródigo e prodígio, que agora retorna a mim. Olhe no seu olho. ehehahheHEHeahahahehhah"

O riso de Deus ecoa os ouvidos de Nadja, ela olha o espelho. Seu reflexo mostra apenas uma mão humana decepada. Na palma da mão se projeta um olho, com a pupila de uma cor inexistente no mundo humano. Nadja nota seu corpo, agora ela é a mão com o olho, e percebe que sempre foi.

Deus, agora com um sorriso sincero de uma criança, para de pintar por um instante e mostra que não possui nenhuma das mãos. Afasta o cabelo com seus pulsos e mostra a ausência completa de olhos.

"Você é meu filho, feito de meu corpo. Você é a humanidade e do barro de minha mão e meu olho eu te moldei. Mas também moldei os Naibeans com minha outra mão e meu outro olho, para que não estivessem sozinhos."

Nadja, que agora estava de volta ao seu quarto em sua forma de adolescente humana, foi completamente tomada por uma sensação maravilhosa de descoberta e amor ao existir. Respirou fundo e sussurrou, completamente pasma:

"Esse livro não é um livro, é um mapa, uma passagem, e um veículo"


Foi tomada por uma sensação de torpor completo e desmaiou no meio do quarto.

2 comentários:

Vortek disse...

Shuugg'la Mag'louZappzerrrroouu!

jahz disse...

Meritas summus sacanorim patibulus culis de reflexão. Geralmente a senha se perde ow. Yem... tem q avisar antes... claramente.