quinta-feira, agosto 16, 2012

Carta Para Todas As Crianças do Mundo.

"Eu imaginava Papai Noel como um criminoso. Um homem velho que dava brinquedos para crianças do mundo todo,  que conseguia visitar todas as casas do mundo em uma única noite e conhecia, não só o endereço, como também as travessuras que as crianças aprontavam. Isso me parecia muito suspeito.

Como um homem com todo esse poder usaria ele apenas para presentear crianças sem nenhum lucro ou benefício em troca dessa atitude? Bondade? Bondade não me parecia uma justificativa aceitável. Eu achava que o Bom-Velhinho era uma possível ameaça á ordem social. Um Terrorista em potencial.

(Afinal se ele podia fabricar diversos brinquedos e colocá-los em todas as casas do mundo, ele poderia facilmente implantar bombas em todos os lugares)

Tentei avisar as autoridades ( que naquela época se resumiam em : Minha Mãe, Meu Pai, Meus Avós, Meus Tios, Meu Cachorro e Deus, que era um amigo imaginário) mas nenhuma me ouviu com seriedade. Vendo que não teria apoio comecei minha guerra sozinho. Iria desmascarar aquele velhinho de qualquer forma.

(Minhas atitudes foram influenciadas pelo meu senso de revolta, eu confesso. Diversas vezes fui colocado injustamente na lista dos maus meninos, devido ao meu abuso de doces e minha recusa pelo tratamento do brócolis. Mas acredito que cada um tem o direito de usufruir de seu corpo como bem entende, seja fazendo o dever de casa, ou comendo os deliciosos chocolates antes da páscoa. E a alimentação obrigatória dos legumes deveria ser erradicada da nossa vivência.  A "Lista de Bons e Maus Meninos"  possuída pelo Senhor Noel é só mais uma amostra de como o fascismo tem se adentrado dentro na nossa vivência de modo sutil e traiçoeiro)

Armei diversas armadilhas nos anos que se passaram mas todas falharam. Devido a minha inexperiência com mecanismos e técnicas de guerrilha, falhei com a minha missão diversas vezes. Algumas vezes pensei estar louco por arquitetar esse plano.  Pensei que o mundo inteiro estava conspirando contra mim. 

Me senti sozinho e abandonado.

Foi quando, através de antigos contatos, eu obtive uma grandiosa informação sobre as habilidades de Noel. Descobri que na verdade, não era ele visitando a casa de cada uma das crianças do mundo, e sim os próprios pais das crianças. Ele não podia ser pego, porque simplesmente ele não estava lá.

Tive ódio, e repulsa. Quis matá-lo com minhas próprias mãos. Não bastava tentar adquirir fama de bom homem, mas também dominava a mente de meus familiares para conseguir isso. Fazia meus pais gastarem dinheiro com brinquedos todos os anos, e ainda dizerem que foi presente de um velho-gordo-vestido-de-vermelho. Isso foi o suficiente para que eu fosse atrás dele.

Nesse momento, creio eu, devo estar chegando ao polo norte. Meus dedos estão completamente congelados e mal consigo escrever. Mais porque não completei a segunda série, e nunca fui bom em português.

Escrevo essa carta, porque já duvido do meu sucesso nessa missão. Tem muitos dias que procuro o quartel general do maldito e não acho. Talvez ele esteja muito bem escondido. Talvez...

Estive pensando, pode parecer uma ideia louca para você, mas encarar esse frio infernal me fez pensar nisso. E se Papai Noel não existir? E se for uma mentira dos adultos, uma brincadeira de mal gosto? Começo a pensar nisso, e tudo começa a fazer sentido. Talvez ele não seja real e toda minha vida tenha sido em vão. Eu me arrependo de ter ido tão longe.

Caso alguém encontre essa carta faça com que ela venha ao público. Tenho medo que, caso isso tudo seja uma mentira dos adultos, outras crianças possam ir longe demais como eu. Espero que vocês entendam o quanto isso pode ser perigoso. 

E eu achava que Papai Noel era o vilão da história."

Pergaminho Encontrado Numa Garrafa De Vidro Numa Praia Comum,
 Assim Como, Estereotipadamente, São Encontrados
 Todos Os Mapas Do Tesouro
E Cartas de Pobres 
Coitados Que Já
 Morreram.

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