segunda-feira, fevereiro 15, 2010

O job do customer relationship management

por Pedro Ivo Resende

Chegava o final do mês e, como todos os outros funcionários da empresa, eu reclamava do salário. A diferença era que nunca trabalhei lá. Há uns cinco anos eu tinha sentido vontade de ir ao banheiro, pedi para usar o lavabo deles e acabei ficando. Encontrei uma cadeira vazia, uma pilha de papéis e uma velha máquina de escrever elétrica. Era o que eu precisava para começar a digitar meus relatórios, que ninguém lia. Ocasionalmente eu alternava essa função com uma outra, mais divertida: interromper reuniões de negócio com algumas frases de efeito.

- Me desculpe, senhores, mas o job do customer relationship management já está pronto?
- O quê?!
- O job do customer relationship management. Ele deve estar pronto on demand ou isso influenciará o downsizing do nosso share of mind no data-warehouse.
- Nós não estamos sabendo de nada.
- Eu escrevi um relatório sobre isso ontem, depois do staff meeting!! Seus corporate executives de merda. Todos vocês receberam!!
- A gente... A gente não recebeu.
- Não receberam, né? Vocês que sabem. O presidente da empresa vem amanhã aí. Se esse job não estiver pronto, anéis anorretais irão sangrar!!

Em questão de segundos todos os sujeitos começavam a revirar aquela papelada, procurando a porra do relatório. Entornavam latas de lixo, agrediam secretárias, tremiam de nervoso, empapuçavam o colarinho de suor. Um deles chegou inclusive a ter um ataque cardíaco, mas o meu advogado me instruiu a não comentar nada sobre este assunto. Depois desse incidente eu resolvi encontrar um novo hobby. Consistia em ficar plantado na entrada da empresa e espantar todos os nossos clientes com uma fantasia de bate-bola. Alguns deles eram mais corajosos e tentavam entrar assim mesmo. Mas nada que um spray paralisante não resolvesse. Quando fechamos o terceiro semestre com prejuízo por conta disso, eu escrevi um relatório culpando o Luciano do almoxarifado, que vinha tomando café demais. Fiz as contas de quanto o sujeito bebeu nos últimos três meses e sugeri que ele fosse enrolado em um casulo de fita crepe e papel almaço, sendo abandonado à própria sorte em algum canto da empresa. Mas como ninguém lê o que eu escrevo, não aconteceu nada.

De uns meses para cá eu comecei a me sentir meio inútil e decidi cuidar de uma impressora. Só que ela fazia muito barulho. "Cheeeng", "cheeeng", sabe como é? Eu ali parado o dia inteiro, sem ninguém pra conversar, ao lado daquela porra e ela fazendo "cheeeeng", "cheeeeng". Entornei um copo inteiro de café em cima da maldita máquina, que parou de fazer barulho. Algum espertalhão do suporte apareceu e começou a gritar que eu tinha quebrado a única impressora do andar. Mas obviamente o culpado era o Luciano do almoxarifado.

- Se ele tivesse bebido todo o café, nada disso teria acontecido.

Houve uma comoção geral em torno da impressora. Era uma Epson Fucking Advanced 3000, imprimia colorido todos os documentos, nunca deixou ninguém na mão. Uma mulher atirou um clips em mim e eu percebi que precisava fazer alguma coisa para acalmar os ânimos. Foi então que descobri como resolver aquele impasse: eu ia ficar circulando pelo escritório com um bloquinho.

- Ei, cara do bloquinho, tô precisando imprimir esse texto!

Daí eu copiava tudo o que estava escrito no monitor e deixava as folhas de papel em cima da mesa. Até ai tudo bem. Complicado era quando tinha alguma imagem no meio e eu precisava usar lápis de cor. Nunca soube desenhar direito. Passava o programa do Daniel Azulay na TV e eu, já velho, não conseguia fazer nada daquilo. Foda.

Toda essa minha nova função como impressora me absorveu muito. Eu praticamente morava no escritório, virando noites com o bloquinho e cada vez me distanciando mais da minha família. Tinha em casa uma esposa gorda, um poodle neurótico e um filho de olhos puxados que não se parecia muito comigo. Mas sentia falta deles mesmo assim. E como eu estava divido entre meu trabalho e família, achei melhor trazer eles para ficar comigo no escritório. Morar mesmo, entende? E foi assim que nos mudamos de vez. O Lucas, o meu filho com cara de japonês, fez de uma das salas de reunião o seu quarto. Pendurou um modelo Revell no teto e formatou o computador do chefe pra poder jogar Fifa Soccer. Minha gorda esposa pôs um fogão no meio da sala de engenharia. Chamou todas as amigas pra conhecer a casa nova. E por incrível que pareça, o pessoal do escritório parecia não dar a mínima. Estavam concentrados demais no trabalho para perceber o que acontecia à sua volta. O poodle cagando todo o corredor, o garoto roendo a unha do pé na recepção, a mulher passando a feiticeira no carpete; nada disso incomodava os funcionários.

Depois de uns meses o escritório fechou. Não foi culpa de mais um trimestre de prejuízo, da conjuntura econômica, nem tão pouco do Luciano do almoxarifado. Ao voltar de um almoço no domingo, percebemos que minha esposa esquecera a chave no escritório, trancado a gente do lado de fora. Na segunda-feira ninguém conseguiu entrar. E os dias foram se passando, os funcionários se amontoando na entrada, até que chegou a notícia: a empresa havia pedido concordata. Foi ai que decidimos ir ao bar mais próximo e nos reunir pela última vez. Enchemos a cara. A certa altura alguém sugeriu que fizéssemos uma roda de oração. Demos as mãos e, como nenhum de nós sabia rezar e todos ali já estavam bêbados, cantamos uma música triste do Chico Buarque. Não me lembro o nome. O que eu me lembro é do rosto daqueles colegas a quem aprendi a amar nestes últimos anos. Lembro-me de todos os momentos que compartilhamos juntos, das conquistas, das derrotas, do sentimento comum de fraternidade que nos unia em torno desta empresa. Mas com esse pequeno detalhe: eu nunca trabalhei lá.

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